O Mister, o Presidente e o perfil dos comunicadores vencedores

 

Em 2016, ano em que Portugal se sagrou campeão europeu de futebol, decidi analisar e escrever sobre o perfil de comunicação do Mister Fernando Santos.

Se bem nos recordamos, ele ousou dizer a todos nós, ainda na fase de apuramento, “Vamos ganhar”, e que só voltaria a Portugal no dia 11 de julho para ser recebido em festa.

Nunca nenhum selecionador na história do futebol tinha arriscado ir tão longe.

Pela primeira vez em Portugal o responsável da seleção quebrou as barreiras dos hábitos e receios e assumiu publicamente o compromisso sem hesitar. Sermos Campeões.

Poucos julgavam possível o apuramento, e independente de se jogar bonito ou não, o Mister, homem de fortes convicções, colocou como grande objetivo o primeiro lugar no Europeu de Futebol. “Queremos chegar à final e vencê-la”.

Uma profecia ou uma estratégia de comunicação planeada, com mensagens fortes, capaz de suportar os objetivos da seleção e moralizar os jogadores em torno do sucesso colectivo e individual ?

Sou adepto da estratégia de comunicação, até porque estou convicto que o sucesso das organizações resulta em grande medida, da capacidade de comunicarmos eficazmente e de criarmos relações com todas as partes interessadas.

Chegada à meia final, Fernando Santos reforça a sua mensagem “… muito dificilmente alguém ganha a Portugal, não é fácil”.  “Criámos um grupo forte, unido.”

Após a vitória da meia final com o País de Gales, selecionador e jogadores apresentaram-se na conferência de imprensa, claramente apostados na vitória com  com os gauleses “Agora é para ganhar porque as finais não se jogam, ganham-se”,  e ganhámos.

Ao longo das últimas semanas, não temos sido insensíveis ás imagens que nos chegam da invasão da Ucrânia, com relatos de ataques em todo o país, com mortes de militares e civis.

Por entre as sanções da Europa e dos Estados Unidos, e de todo um povo que tenta resistir aos ataques, o Presidente Volodymyr Zelensky, têm-se destacado pelas suas intervenções públicas, com mensagens,  naturais e claras,  a ponto de já o apelidarem de rock star, e ser para muitos o candidato preferido ao Prémio Nobel da Paz.

Nas redes sócias onde marca uma presença constante, já chegou aos milhões de seguidores, quando antes da invasão nem sequer conta de facebook tinha.

O Presidente da Ucrânia, que conquistou uma ovação de pé no Parlamento Europeu, consegue repetir o feito na primeira vez que um líder estrangeiro discursa à distância no Parlamento Britânico.

Começou por comparar a guerra com a Rússia, aos esforços britânicos durante a 2º Guerra Mundial, levando a que países fora do conflito, tenham reforçado a sua identificação com a Ucrânia.

Aos deputados, o Presidente Zelensky garantiu que vão continuar a lutar. “Não vamos desistir, não vamos perder”, numa mensagem forte, que apela ao heroísmo dos combatentes, mesmo daqueles que de outros geografias, se alistam de forma voluntária, para combater os invasores.

Nas suas intervenções, o Presidente Zelenski assume-se claramente como o líder que não quer deixar ninguém para trás.

Por várias vezes, refere-se a eles como “…os ucranianos fortes e extraordinários”.

No Congresso dos Estados Unidos, a sua intervenção, começou novamente com uma ovação de pé dos políticos norte-americanos.

No seu discurso usa a expressão “Eu tenho um sonho”, fazendo recordar Martin Luther King, líder do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, e figura amplamente conhecida pela luta dos direitos políticos através da não-violência.

Lembrem-se de Pearl Harbor” e relembra o 11 de Setembro, para falar dos inocentes de guerra e dos ataques a zonas residenciais.

Fala das vacinas contra a covid-19. “O mundo passou meses, anos a fazer coisas muito mais depressa, para garantir que não haverá perdas humanas”, quando desafia o senado para a criação da associação pela paz no mundo.

Nos três momentos cirurgicamente escolhidos, e que marcam o discurso de Zelenski,  vemos o perfil de um comunicador ativo, persuasivo e empático,  com uma certa dose de autoconfiança.

Hoje pagamos por valores, por direitos, por liberdade, apenas pelo desejo de ser igual, igual a vocês.

E a cultura e a resistência de um povo constrói-se quando existe um objetivo comum – a independência do território, neste caso, que é reforçado a cada momento e de forma continuada. “Vamos continuar a lutar pelo nosso território, seja qual for o custo”.

Todos esperamos pelo desfecho deste conflito, na expetativa de que seja a paz a ganhar.

Mas enquanto comunicador,  o Presidente Zelenski é já um vencedor.

Por Luis Roberto, Managing Partner da Comunicatorium  e Professor convidado do ISCSP-ULisboa

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